Palácio Rio Negro

     Manaus, começo do séc. XX, todos seus requintes modernos – luz elétrica, bonde, cultura contemporânea – borbulham com o ativo (e altamente rentável!) comércio da borracha. Waldemar Scholz, um dos muitos membros da elite do látex, ostenta sua nova moradia: na Rua Municipal, próximo ao Igarapé de Manaus, num local “chic” da cidade, ergue-se a luxuosa mansão, concebida, talvez, num sonho de uma noite de verão equatorial…
     Abrem-se os pesados portões de ferro, trazidos provavelmente da Inglaterra ou de sua Alemanha natal: o modelo estilo Art Nouveau mostra que Scholz era um homem que conhecia e escolhia o que de melhor existia na época. Caminhamos alguns passos pelo jardim, salpicado com estatuetas de bronze e luminárias de ferro fundido. A fachada do prédio, imponente e, sem dúvida, original, assenta-se, sólida, em nossa frente.
Vemos aqui uma mistura interessante dos mais variados estilos, trazidos da Europa de começo-de-século. A fachada, originalmente pintada de cinza claro e com seus inúmeros recuos e avanços suas curvas e ângulos retos, se movimenta com um virtuosismo que, a primeira vista, transparece como extravagante. A impressão que temos é de estar diante de uma obra confeitada, um castelo de sonhos, de contos de fada. Este tipo de arquitetura foi muito comum na época nos novos centros de acelerado desenvolvimento econômico, tais como Manaus no período da borracha. A sociedade nouveau-riche que se firmava, junto com sua nova fonte de riqueza criava também uma nova estética cuja expressão primeira seria sempre a arquitetura; as residências particulares, como também as instituições governamentais, comerciais e culturais caracterizavam-se pelo ecletismo, pela mistura, às vezes um, tanto quanto desgovernada das mais diversas influências. Kitsch? Sem dúvida! Um “Kitsch” hoje, porém, merecedor de respeito e estudado.
     Mas, nosso passeio não termina logo na fachada. Subindo as escadarias externas e entrando pelo saguão, nos deparamos mais uma vez com um imponente – nem um pouco discreto – visual. Os assoalhos de acapú e pau amarelo envernizados, contrastam com as paredes pintadas e com os diversos móveis e objetos (muitos deles de origem oriental) estrategicamente colocados no ambiente. A sólida escadaria nos leva até o segundo andar, aqui cada aposento é pintado de uma cor diferente, oscilando do pastel até o berrante: azul claro, azul carregado, lilás, rosa, amarelo, marrom e até mesmo o branco são elegantemente decorados com azulejos e ladrilhos, frizos e lustres da melhores escolas Art Nouveau da Europa.
     A parte posterior do prédio é, tanto no térreo, como no andar superior, avarandada com chão de ladrilhos e estrutura de ferro fundido. Aqui, Waldemar Scholz admirava a exuberante vista de seu jardim e o Igarapé de Manaus. Suas “gardenparties” seriam, certamente, as mais “badaladas” de Manaus!
Seu sonho, entretanto, durou pouco. A borracha, levada para plantações cultivadas no Sudeste Asiático pelos ingleses, começava a abalar a economia deste produto aqui na Amazônia. Scholz viu-se forçado a hipotecar sua mansão para saldar dívidas comerciais. Finalmente, em 1914, a Guerra corta por completo o comércio e termina, assim, com o sonho do alemão.
     O imóvel é vendido ao Estado. O então governador, Pedro d’Alcantara Bacellar transforma o Palacete Scholz em Palácio Rio Negro e instala ali seu governo.
O palácio está incluído como patrimônio histórico estadual e foi restaurado e adequado em 1997 para a função de Centro Cultural definitivamente implantado em agosto do mesmo ano.
     Quem era Waldemar Scholz?
     Pouco se sabe a respeito de Waldemar Scholz antes de sua chegada ao Brasil. O que há de concreto é que atraído pela valorização da borracha, este homem culto e “de sobejantes energias” aportou em Manaus no fim do século passado. Trazendo consigo inúmeras recomendações, já em 1903 ele se estabelecia à Rua dos Remédios com um armazém e escritório de compra e beneficiamento de borracha para exportação.
Scholz era muito ativo na pequena colônia alemã, tendo ajudado, inclusive, a fundar o Clube Alemão. Em 1913 ocupava o cargo de Cônsul da Áustria e fazia parte da Diretoria da Associação Comercial do Amazonas.
      Com a crise econômica atingindo-o em cheio, ele recorre ao abastado negociante, proprietário e seringalista do Purus, Luiz da Silva Gomes, para um empréstimo de quatrocentos contos de réis, oferecento como garantia a hipoteca de seu palacete.
      A guerra e a subseqüente paralização da linha comercial Hamburgo-Manaus agrava ainda mais a situação de Scholz. Seu “Palácio dos Sonhos” é inicialmente alugado e depois vendido (pela irrisória quantia de duzentos contos) ao Governo do Estado, durante a gestão de Pedro D’Alcantara Bacellar.
     Afinal, em 1916 Waldemar Scholz retorna definitivamente à sua terra natal. Segundo relatos seus, deixava aqui saudades e não descartava nunca a possibilidade de voltar.
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